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domingo, novembro 28, 2010

É preciso uma auto-organização para podermos lutar

«Pois, colegas, é preciso uma auto-organização das pessoas, para podermos lutar.

Agora compreendo muito melhor José Gil, que afirma que Portugal é um país onde as pessoas «não se inscrevem». Ou seja, em linguagem mais chã: não se assumem.
«Por outras palavras, têm muito medo do que se possa pensar delas, de ficarem queimadas, etc.
Temos de sacudir essa mentalidade. Tendo conhecimento dos nossos direitos e de como exercê-los, em contacto com pessoas que respeitamos, mesmo que não tenhamos sempre a mesma opinião e não deixando que outros decidam em nosso nome, quando somos nós que temos de decidir.

É necessário responsabilizar as pessoas que causam tamanho mal à escola e à democracia.
Responsabilizá-las agora, pelo mal que têm feito… não num futuro distante!
A história de que «é a favor da ministra… mas no fundo é boa pessoa, é honesta…» já nem pega. Acho impossível ser-se em sumultâneo docente numa escola portuguesa, honesta, inteligente e apoiante da ministra e do governo, presentemente.

Solidariedade,
MB»

in A Educação do meu umbigo (ler tudo)

quarta-feira, novembro 24, 2010

A CDEP APOIA A GREVE GERAL DE 24/11/2010


Sucesso na greve geral é abrir o caminho à retirada do plano de austeridade contra a Escola Pública:

- Para garantir o vínculo dos milhares de professores e restantes trabalhadores do ensino com contratos precários!

- Para abrir o caminho ao restabelecimento da democracia nas escolas e ao pagamento por inteiro
dos salários!


A CDEP, fiel aos seus princípios de defesa de uma Escola Pública ao serviço da
qualificação e formação humanista das jovens gerações, reafirma o seu apoio à greve
geral do próximo dia 24, pela retirada do plano de austeridade contra todos os serviços
públicos, em particular a Escola Pública. Ela é uma conquista da civilização – mantida,
nos tempos que correm, pela força da democracia, consubstanciada nas instituições que
são o produto da luta organizada dos trabalhadores.

A CDEP lembra que o plano de austeridade do Governo visa fazer cortes de milhões e
milhões de euros em todo o ensino, do pré-escolar ao superior, traduzidos na eliminação
de milhares de postos de trabalho, dos professores e dos restantes trabalhadores do
ensino. Tais cortes irão ter consequências gravíssimas no processo de aprendizagem e
de formação dos alunos, em particular dos mais carenciados, quer socialmente quer do
ponto de vista das fragilidades de quem necessita de uma formação especializada e de
cuidados acrescidos.

Assim, reconhecendo que esta greve é de todos os trabalhadores – para defender a
retirada do plano de austeridade e, nomeadamente, os postos de trabalho e o vínculo de
quantos são precários ou estão no desemprego – a CDEP saúda, de forma particular, as
mobilizações dos docentes e das suas organizações sindicais.

Saúda, ainda, os professores contratados e desempregados que, no dia da greve geral,
se vão concentrar diante do Ministério da Educação para exigir a vinculação ao ME – de
acordo com a Lei geral do Trabalho – de todos os docentes nesta situação.

A CDEP apoia qualquer passo, por mais pequeno que seja, que vá no sentido desta
vinculação. É por isso que se congratula com a posição assumida pela FENPROF ao
exigir a abertura do concurso nacional de colocação de docentes, mas defendendo que
este deve permitir a abertura de vagas do Quadro para todos os docentes que estão a
garantir (e também dos que são necessários para garantir) o normal funcionamento das
escolas, e que são muito mais que 15 mil.

Consciente de que os trabalhadores têm capacidade para realizar a mobilização unida,
capaz de garantir todas estas legítimas exigências, como já o demonstraram as recentes
mobilizações dos professores, a CDEP junta-se a todos os trabalhadores que esperam
que as Centrais sindicais não aceitem negociar, após o dia de greve geral, qualquer
plano de alteração / “amenização” do “Plano de Estabilidade e Crescimento”, em nome da
política “do mal, o menos”, pois ele voltar-se-á contra os trabalhadores, contra a Escola
Pública e contra as organizações sindicais, como a experiência o tem demonstrado.

Lisboa, 24 de Novembro de 2010

A Comissão de Defesa da Escola Pública

http://escolapublica2.blogspot.com/2010/11/cdep-apoia-greve-geral-de-24112010.html

segunda-feira, novembro 08, 2010

Agora ou nunca mais!



Na sexta-feira fui à primeira reunião deste ano da Associação de Pais da escola dos meus filhos. O maior problema que a escola enfrenta neste momento é a falta de 9 "assistentes operacionais", como agora pomposamente se chama aos auxiliares de acção educativa. Este problema pode levar ao encerramento de pavilhões de aulas, bem como ao impedimento de algumas aulas de educação física por não haver quem abra portas, vigie e limpe os balneários. Neste momento já existem casas de banho encerradas e já foram vistos professores a limpar o chão com uma esfregona. O director da escola secundária, que pertence ao ME, já alertou a DREL várias vezes para este problema, pedindo mais funcionários. Teve ordens para recorrer à bolsa de emprego local. Mas as pessoas que estão nesta situação não podem trabalhar mais do que 3 horas/dia para não terem o direito a subsídio de refeição. Por isso sempre que aparece alguém não fica muito tempo, vendo-se obrigada a aceitar outros trabalhos, como a limpeza de casas particulares, onde recebem 6 euros/hora.
Surgiu a possibilidade da Associação de Pais reportar o caso à DREL, conjuntamente com o director da escola, para reforçar o carácter urgente de desbloquear esta situação. Suponho que os cortes orçamentais vão impedir as escolas de contratar mais pessoal auxiliar. Também o caso do refeitório é inquietante: a escola dispõe de cozinha e cozinheira e as refeições são confeccionadas lá e de boa qualidade. Mas o ME não vai permitir que isso aconteça pois existem as empresas de catering a precisar de fazer negócio. Perspectiva-se que a cozinha venha a encerrar, passando a comida a vir de fora, às paletes. Apesar desta escola já auto-financiar o refeitório com o dinheiro que realiza alugando o pavilhão desportivo.
Posto isto os pais ponderaram em escrever uma carta directamente à Ministra da Educação, dizendo que não havendo condições a escola pode encerrar por incapacidade e o que o problema da falta de funcionários tem implicado de turmas sem aulas.
Ainda um dia destes numa reunião de professores e educadores, coloquei a questão dos professores poderem atestar que estas situações existem nas escolas, mas como o assunto diz respeito a outra classe profissional - a dos "assistentes operacionais" - os professores pouco se mobilizariam por uma outra classe profissional... nem todos. Há professores que funcionam num todo e querem dar aulas e que a escola pública funcione. E já há muito que dizem que todos devem estar juntos nesta luta porque a escola pública é a dos filhos dos trabalhadores e todos eles devem ter condições para a poder frequentar, mesmo os filhos dos desempregados. Se alguma vez as várias classes profissionais tivessem estado juntar na defesa da escola dos seus filhos não teriam ido tão longe nos ataques à escola pública e aos direitos do trabalho. As obras nos edifícios da escola são outro problema que acaba de ser adiado por dois anos, devido às medidas de austeridade.
Nestas reuniões associativas há de tudo. É fácil identificar os pais que procuram desculpabilizar o sistema e apressar os filhos a entrar na faculdade. Estão ali para resolver o problema, para se despacharem. Por isso houve quem propusesse que os pais talvez pudessem pagar os 3 euros que fazem 6 para os que chegam da bolsa de emprego não irem à procura de melhor sorte. Afirmei que isso era contra todos os princípios e que só estaríamos a remendar o sistema enquanto este se demitia das suas obrigações. Nem pensar. Em pouco tempo teríamos os pais a pagar do seu bolso não só cada vez mais impostos como também pagando todos os recursos e quem sabe até um dia comparticipando no ordenado dos professores...
Se não for agora que as associações de pais se mexam com as federações locais, junto com os directores das escolas, a escola pública está em risco iminente de acabar. Cada vez perdemos mais direitos. Não podemos ficar impávidos e serenos.

VER TAMBÉM UMA AVENTURA... [dos "elementos importantes" no reino da OCDE]

quinta-feira, novembro 04, 2010

Blogue de homenagem a Santana Castilho

foto daqui

A primeira vez que ouvi "ao vivo" Santana Castilho foi num encontro da Comissão pela Defesa da Escola Pública, já lá vão uns aninhos, estava a luta dos professores encarniçada. Nesse encontro Santana Castilho apresentou um PowerPoint onde reuniu uma série de dados, alguns numéricos, sobre a situação do país em geral e da Escola Pública em particular. Embora muitos desses factos fossem por mim conhecidos, assim postos lado a lado e em retrospectiva, foi como se se fizesse luz. Também nas suas habituais crónicas, Santana Castilho tem o condão de tornar tudo muito claro e explícito, de forma a que, mesmo os menos conscientes e/ou mais desatentos, se as lessem, conseguiriam perceber o alcance dos ataques que têm sido feitos à Escola Pública Portuguesa, nos últimos anos.
Por alturas das eleições legislativas andou no ar um rumor de que se o PSD ganhasse este era um dos nomes possíveis para o Ministério da Educação. Lembro-me de ter pensado na altura que se isso fosse verdade e acontecesse, muito provavelmente perderíamos (todos aqueles que defendem uma escola de qualidade) uma voz lúcida e incómoda. Porque sempre tive vontade de perguntar a Santana Castilho como iria ele coadunar as suas brilhantes teorias (e não estou a ser irónica!) com as directivas e os cortes para a educação impostos pela Agenda de Lisboa sem romper com a União Europeia.
À parte desta minha dúvida, leio regularmente as crónicas sobre educação de Santana Castilho e aprecio o modo como colocam o dedo na ferida, pondo a nu as mais diversas questões relacionadas com o tema da Educação. E parece-me bem que alguém se tenha lembrado de lhe prestar esta homenagem dedicando-lhe um blogue:

NOVO BLOGUE: http://santanacastilho.blogspot.com/

«Este é um blogue de homenagem ao Professor Santana Castilho, uma retribuição (bem pequena) pelo muito que tem feito em defesa dos professores e da Escola Pública.»

segunda-feira, outubro 25, 2010

Primeiro estranha-se, depois entranha-se

Cartoon daqui

«Alevanta-te, Povo!» (Sebastião da Gama)

Foto daqui

Meu País Desgraçado

Sebastião da Gama

Meu país desgraçado!...
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas ...

Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anêmico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!

http://www.astormentas.com/poema.aspx?id=6145&tp=&titulo=Meu+Pa%C3%ADs+Desgra%C3%A7ado

domingo, outubro 24, 2010

Catalisemos também nós um debate construtivo e enriquecedor das consciências

«Com a definição dos padrões de desempenho docente pretende-se contribuir para orientar a acção dos docentes, estimular a auto-reflexão, articular a avaliação do seu desempenho e catalisar um debate construtivo e enriquecedor sobre a profissão docente.» (ME)



Padrões de desempenho...se cada professor tinha o seu modo próprio de ensinar (ou não) isso agora deixou de interessar. O ME é quem estabelece os padrões e os professores limitam-se a desempenhar esses padrões como se fossem um mero guião. Assim nasceu o professor cumpridor... potencial candidato aos prémios de desempenho...

O ME, que é amiguinho dos professores em geral, quer apenas "contribuir para orientar a acção dos docentes" e estimular-lhes a auto-reflexão (oh, mas assim já não é AUTO-reflexão...!!!), não sendo desejáveis as avaliações de desempenho desarticuladas, já que o objectivo é catalisar (http://pt.wikipedia.org/wiki/Catalisador) um "debate enriquecedor sobre a profissão docente".

Aceitamos o desafio! Mesmo não sendo professores, mas ainda assim enquanto pais, somos (também) educadores e trabalhadores (ou meros desempregados), vamos então a esse debate enriquecedor tão desejado...
O que aqui está em causa, não são os meros formalismos burocrático-profissionais em que querem espartilhar a honrada profissão de quem é suposto transmitir cultura e conhecimento, embora isso bastasse para a revolta de quem ainda tem um pingo de ética.
Mas o que está aqui em causa é muito mais grave e diz respeito a todos nós professores e não professores. É o futuro dos nossos filhos que está a ser posto em causa. E não só através da destruição da escola pública, enquanto serviço público, equitativo e gratuito para formar cidadãos livres. Também pela destruição de uma ou mais gerações destinadas à precariedade e ao desemprego ou à subsídio-dependência. Mão de obra barata e inculta... carne para canhão... o sonho de poderem vir a ser alguém se puderem dar o salto... nem que seja para o Afeganistão... ou para a Grécia. Tantos anos perdidos a estudar, depois na faculdade já com os juros do empréstimo a acumular... e a licenciatura de Bolonha que não serve para nada e mais um empréstimo para o Mestrado para ser realmente licenciado... eles que vão pagar a crise da nossa crise...
Não, tudo menos ir dar aulas... já não basta o barulho das crianças e a genica que é preciso ter numa sala com 30 alunos com as hormonas destrambelhadas. ainda mais toda a carga burocrática que impede os professores de aperfeiçoarem e desenvolverem o seu trabalho?Investigação? Cá não há... só call centers. Só lá fora... para os que podem. E cada vez as famílias menos podem. Emprego? Não há, para licenciados é ainda mais difícil... ou vão dar aulas ou ficam desempregados de longa duração. Para o Estado é bom, já nem recebem subsídios... a não ser que queiram pertencer a qualquer coisa que os favoreça...
Tudo isto a que assistimos, estes cortes já estavam previstos voltaram em força com os ecos ensurdecedores da crise... mas a crise, na prática, só chega aos serviços públicos e aos bolsos das pessoas. A escola pública já enfraquecida vai enfrentar os cortes dos PECs sucessivos. No início do ano lectivo pais fechavam escolas por não terem segurança, por não terem pessoal auxiliar... e ainda se vão sentir muito mais as consequências. A nova fornada de professores que já não vai ter concurso para o ano vai sentir... as pessoas vão sentir em cada aumento, em cada perda de benefícios. Todos vão sofrer e haverá em Portugal ainda mais crianças com fome do que as que já há.
Mas os pais nunca se uniram aos professores quando estes alertaram para os ataques a que estavam a ser submetidas a escola pública e a sua profissão. E veio a ministra sorridente com ares de tia e só poucos viram nela mais uma sinistra ministra.
E os professores nunca passaram do portão da escola para a rua para dizerem àquelas famílias cada vez mais precárias e desestruturadas o que lhes ia acontecer ao futuro dos filhos.
Por isso ainda nada foi possível porque às vezes as coisas têm que bater tão no fundo para as consciências acordarem.