quinta-feira, janeiro 13, 2011

Aníbal Cavaco Silva, Grande Timoneiro da Wainfleet, Pavilhão da Mafia Russa, em Portugal







Já me zanguei e reconciliei com muita coisa, neste desastre adiado, a que ainda chamamos Portugal. Contudo, há uma com a qual, irredutivelmente, nunca me reconciliarei, aliás, considero-a uma excrescência da minha contemporaneidade, e em todos os textos que escreva, ela será referenciada como o grande tumor da liberdade nacional. Evidentemente, não falo de Sócrates, mas da sombra, que, in extremis, me poderia fazer reconciliar com a pessoa que mais tenho combatido, ao longo do consulado desse mesmo José Sócrates.

José Sócrates é aquilo que os Franceses chamam um "parvenu", um novo rico, recém chegado, com poucas habilitações e umas sapatilhas, que o calçavam, e calçam, da cabeça aos pés.
Aníbal, ao contrário, é uma espécie de irmã badalhoca daquelas Cinderelas dos contos, que tentou calçar as botas de Salazar, e, quando as quis tirar, já se lhe tinham soldado aos pés.
A criatura é muito baixa, e até já parecia desativada pela doença, mas o ímpeto da campanha, a promiscuidade com os caixões, as velhas com cheiro a bolor, os crucifixos rançosos, os velhos camaradas do baixo crime, os ares frios de Viseu, as santarias, os comprimidos do Professor Lobo Antunes, e, penso, alguma iluminação de faróis extintos, que vêem nele o último fôlego e oportunidade de se instalarem na prateleira dos abutres da Nação, deram-lhe algo parecido com as melhoras da morte.

Naquele país de que eu não gosto, e que, em ficção, o poderia reeleger, para destruir o pouco que resta, e lhe deixar nas mãos o título efetivo, que, em potência já tem, o de Carrasco de Portugal, andam a movimentar-se demasiadas forças subterrâneas, para o meu gosto.
O homem é sinistro, e está a voltar aos ardores de antigamente, quando não se enganava e mandava disparar sobre os Portugueses. Não posso vê-lo, e sempre que o vejo, tenho vontade de vomitar. Aníbal Cavaco Silva representa os antípodas de tudo aquilo em que acreditei, acredito, e acreditarei. A sua existência é-me totalmente irrelevante, porque, de aqui a cem anos, ele será uma mancha na História, e os meus textos, modéstia à parte, integrarão a crónica da lucidez, de quem chamou os bois pelos nomes, e traçou os rostos da desgraça da Nação, com ele à cabeça.

Não sou inovador, nem tenho pretensões: o desastre do final da Monarquia, e o desastre da Primeira República tiveram suficientes escritores de craveira, para denunciar excrescências do tecido político muito semelhantes a Cavaco. A diferença é que, antes de Salazar, a crítica da Coisa Política tinha um cheiro, e depois de Salazar, qualquer ente que a ele se queira comparar, é hiperbolizado pelo vómito, e pelo anacronismo de uma tentativa de vogar num tempo em que é, e terá de ser,  irremediavelmente obsoleto.

Quando o algarvio -- e a precisão geográfica é aqui propositadamente ofensiva -- recomenda aos outros que "nasçam duas vezes", para lhe poderem chegar aos calcanhares, eu aceito o desafio, e alinho numa reincarnação conjunta com ele, mas para poder voltar a escrever o mesmo, e com o duplo tom de acidez, de desprezo, e de rejeição que ele me inspira.

Suponho que nem Deus, ao banir Lúcifer, tenha sentido tudo aquilo que eu eu sinto, de asco, por Cavaco Silva.

O grande argumento, que geralmente se cola a Salazar, é o de que foi um "homem honesto", e isso é-me desinteressante, porque Salazar não integra a minha história pessoal, mas, ao pensar na minha história coletiva, reservo-me o direito de dizer que é complicado que haja um país onde um homem honesto, por plenos poderes, tenha conseguido transformar um simpático litoral no país mais atrasado do Continente.
Para mim, sonhador e romântico, cri que isso pudesse ter acontecido uma vez, e servido, de emenda, para sempre.
Não serviu: o ranço, o cheiro a bafio, as teias de aranha mentais, intelectuais, culturais e a visão limitada do Sr. Aníbal e da Srª. Maria são tanto mais incomportáveis quanto estamos no século dos desvarios tecnológicos e das maiores proezas da imaginação humana. Gosto das torres do Dubai, das arquiteturas orgânicas da Nova China, dos computadores quânticos, dos espantosos aviões paquetes, das magníficas fibras dos novos vestuários, da glória das potências emergentes, das casas inteligentes, onde os cidadãos do mundo instalarão as suas proles educadas. Portanto, não suporto que, sempre que abra as janelas à procura de coisas dessas no meu território de residência, o veja, por oposição, pejado de presépios, com vaquinhas em forma de Leonor Beleza, com santinhas de joelhos esfolados por sucessivas idas e vindas a Fátima, por urubus, vestidos de negro, de cujas cabeças saem pensamentos que nem aos inquisidores canónicos lembrariam, e, sobretudo, não suporto que o velho argumento do "homem honesto" me ponha a pagar BPNs e porcarias afins. Só num país destes é que o BPN ainda não foi imediatamente declarado falido, encerrado, e as criaturas que o criaram e dele viveram, no regime de dona branca, não tenham sido desde logo enjauladas, ao lado do seu mentor, esse tal de Sr. Aníbal.

O Sr. Aníbal não tem perfil para coisa nenhuma, exceto para vender em cobertores de feira, como fazia o seu defunto pai, que dizia "o meu filho é o homem mais inteligente de Portugal". Do Portugal dele, suponho, que, pelo que atrás escrevi, era, e é,  totalmente disjunto do Portugal abstrato em que vivo, ou gostaria de que me deixassem, pelo menos por uns tempos, viver.

O Sr. Aníbal era bom para deixar o Palácio de Belém, e ir dirigir, agora que o BPN já "não está a dar", com o Dias Loureiro e a Leonor Beleza, a Wainfleet, a maior empresa exportadora de "Portugal", pilar da Mafia Russa, e que muito deve ter contribuído para este artificial aumento das exportações, 25% das quais passa pelo célebre "off-shore" da Madeira, onde não se vende nada, exceto papéis, onde os produtos em trânsito são artificialmente encarecidos, e a pior escória de Portugal enche os bolsos, à sombra do Sr. Alberto, outro "homem honesto", que nem sabe (?) que isto lhe acontece debaixo do nariz. Podiam fazer-me essa favor: de facto, em 23 de janeiro, não reelegiam Cavaco Silva, para acabar em agonia, na Presidência da República, mas nomeavam-no para a direção da Wainfleet, com a sua Maria, tão importante neste bolor das coisas, como padroeira da "Swatch", outra das maravilhosas grandes exportadoras de Portugal, que tanto faz passar e sair por aqui, sem nada cá produzir, e até podiam continuar a fabricar Mourinhos, como sobremesas.

Só peço desculpa, por este texto, aos 1800 postos de trabalho, que, na Madeira se dedicam ao preenchimento de papéis fantasma, para defraudar o Fisco: alegrem-se, Cavaco Silva será um bom patrão para vocês.

terça-feira, janeiro 11, 2011

COMO É? O que dizia sobre Desporto Escolar?! :-/



É sempre interessante rever os sucessos televisivos e voltar a escutar discursos edificantes, "a la Obama" (alá ôba mâ, em novilíngua do Acordo Ortográfico) em versão poupadinha em ideias e em retórica. Isto para não dizer ,até, em versão,digamos, dadaísta.
Há uns meses, era esta a defesa do desporto escolar pela actual ME.
O que disse então?! Ora cliquem e escutem (centrem-se no conteúdo, por favor e esqueçam o estilo, imaginem uns sons de violinos de fundo e pétalas alvas de flores a cair do céu):
-"O desporto Escolar é muito importante para a prática desportiva" ?!?!
- O desporto (escolar) é importante para a felicidade.......?!?!
- Ninguém gosta de praticar desporto sozinho....?!?!
Pois agora chegaram os devidos louros para todos os professores de Educação Física que promoviam as actividades de Desporto Escolar nos estabelecimentos de Ensino.
Mais uma vez sob a larga capa das medidas de contenção e com a planeada reorganização de créditos horários para as escolas, o ME sob a "alçada" da mesma oradora acaba de dar a última machadada quase fatal sobre as actividades de Desporto Escolar extra-curriculares, com mais um projecto de despacho( que já se prevê que será "mêmo" despachado sem dó nem piedade). E outra consequência, para já invisível, nas próximas décadas será a destruição de boa parte das modalidades desportivas ainda sobreviventes no país e que eram alimentadas pelos jovens valores que migravam do Desporto Escolar.
É no que resulta (des)governar para o imediato.
Eis a notícia, ou parte dela (in "Público", 11-1-2011):
"Escolas dizem que não vão ter horas para desporto
A partir do próximo ano lectivo, as actividades desportivas nas escolas do ensino básico e scundário irão sofrer uma redução drástica. O alerta é feito pelos directores e professores ouvidos pelo PÚBLICO, que falam mesmo de uma morte a prazo do Desporto Escolar, uma actividade de complemento curricular, que no ano passado mobilizou cerca de 160 mil alunos.
Esta será, afirmam, uma das consequências das alterações propostas pelo Ministério da Educação à organização do trabalho nas escolas. O projecto de despacho foi já "chumbado" por unanimidade pelo Conselho de Escolas (CE), um órgão consultivo do ME onde estão representados os directores. Os pareceres do CE têm sido ignorados pelo ministério.(...)"
"até agora as escolas conseguiam garantir muitas das actividades extra-aulas através da redução do tempo lectivo dos professores que estavam à frente dos projectos. É o que se passa, por exemplo, com os docentes de Educação Física que, em simultâneo, asseguram as actividades de Desporto Escolar. Estas ocupam uma média semanal de quatro tempos lectivos, desenvolvidos depois do período normal de aulas. Com o novo despacho, estes professores deixarão de poder usufruir de uma redução da sua componente lectivo normal e, em resultado, as escolas poderão ter de reduzir em mais de 30 por cento o número de horas consagradas ao desporto escolar (...)" (ver link de toda a notícia mais abaixo)
....como diz um Director citado na notícia, o Desporto Escolar é para a maioria dos alunos a única actividade física, para além das aulas de Educação Física, quando tanto se fala no combate ao sedentarismo e à obesidade...
Para a ME , como vimos e ouvimos,era até fundamental para a FELICIDADE humana!
Será este o retoque final, então, para generalizar a infelicidade a todo o cidadão português, que não há muitos anos era considerado pobrezinho mas razoavelmente feliz, nos estudos sobre o tema, mas que ultimamente tem descido de forma drástica nessa "mêma" tabela?
Ver toda a notícia AQUI.

domingo, janeiro 09, 2011

E sim .... algo nos fez sorrir : )))

Copyright © 2011. Gazeta de Coimbra | Copyright © Aguarela de Carlos Carvalho

Gazeta de Coimbra

Gratos pela atenção em http://gazetadecoimbra.pse-engineering.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=67899:uma-aventura-sinistra:-apesar-da-acalmia-h%C3%A1-sempre-algo-que-nos-%3Cb%3E...%3C/b%3E&catid=1:blogs&Itemid=50

Apesar da acalmia há sempre algo que nos ria ...

A notícia de hoje prende-se à DREC. Porquê? Porque acabou de inaugurar obra que a deixará enaltecida pelos próximos anos:

DREC gasta 138 mil euros a tapar o sol aos carros

Em contrapartida, falta dinheiro para escola com muro que ameaça vida de jovens e não só, como todos nós sabemos. Seria interessante elaborar uma lista por aqui a baixo onde ponto por ponto se fossem descrevendo as faltas e carências das Escolas da DREC. Uma delas é reportada já aqui:

Foto Miguel Gonçalves
"Houve financiamento para o parque de estacionamento, mas teve dificuldade para arranjar dinheiro para outras obras"Não há dinheiro para arranjar o muro da Escola José Falcão, em Coimbra, que ameaça a vida de pessoas, mas há 138 mil euros para tapar o sol aos carros dos funcionários da DREC. Isto é um escândalo e anedótico", acusam professores e encarregados de educação.
Para a Associação de Pais da Escola Secundária José Falcão (AP/ESJF), de Coimbra, para professores e alunos ouvidos pelo JN e para o Sindicato dos Professores da Região Centro (SPRC), "investir na cobertura de um parque de estacionamento ao ar livre, quando não há dinheiro para recuperar um muro decrépito e perigosíssimo, com cinco a seis metros de altura, na confluência da Rua Henriques Seco com a Avenida D. Afonso Henriques, que está a pôr em risco as pessoas e os carros que por ali passam, é uma "provocação", um atentado à inteligência".
Luís Lobo, dirigente do SPRC, disse ao JN que "é lamentável que, ao mesmo tempo que o Governo decide cortar 5,5% dos orçamentos de funcionamento das escolas e que o parque escolar de Coimbra precisava de ter uma intervenção que, por um lado, garantisse a sua conservação e, por outro, resolvesse alguns problemas estruturais das escolas, se assista a este despesismo, apenas para garantir a conservação não de qualquer bem público, mas tão só de bens privados".
"Espante-se (se ainda alguém se espanta!) o comum dos mortais com os 138 mil euros gastos em coberturas individuais para os automóveis designadamente dos dirigentes da DREC, através de serviço contratado à Ramos Catarino - Arquitectura de Interiores e Construção, Ldª., por ajuste directo!", afirma Luís Lobo, sublinhando que "depois não há dinheiro! Pois não, a gastar-se desta maneira!".
"Quanto mais disto haverá?"
(...)
Enviámos uma carta à DREC, que ela recebeu no dia 3 de Dezembro, a solicitar intervenção urgente na recuperação do muro, que pode cair a todo o instante. Alertámos para o perigo e que terão de assumir responsabilidades caso ali morra alguém. Até hoje, a resposta foi o desprezo. Sabemos apenas que a DREC disse à Direcção da escola que não tinha dinheiro para obras".
Ana Costa diz que enquanto mãe e presidente da AP/ESJF não aceita que "proteger do Sol e da chuva os carros dos funcionários seja mais importante do que proteger a vida das pessoas que circundam a Escola José Falcão".
"Um luxo ofensivo"
O director da escola, Paulo Ferreira, recusou comentar o assunto, mas um docente daquele estabelecimento, que falou ao JN sob anonimato, classificou de "vergonhosa" esta "incoerência e incongruência da DREC". "Não sei se deva rir ou exigir que esta gente vá já para a rua, por má gestão dos dinheiros públicos", afirma, classificando a cobertura do parque automóvel da DREC de "um luxo ofensivo dos portugueses a quem o Governo exige sacrifícios".
Em resposta às críticas, a DREC diz ser "desajustada" e "desenquadrada" a associação das obras ocorridas nas suas instalações - garante a DREC que foram "realizadas em 2009", mas o certo é que a publicação do ajuste directo só aconteceu no final daquele ano - com as obras reivindicadas para a "José Falcão". Por outro lado, assegura que a reconstrução do muro daquela escola é uma "prioridade absoluta", pelo que "estão a ser desencadeados os procedimentos legais devidos".
Fonte: JN

A vermelho .... gostei : /

Este blogue anda parado demais para o meu gosto.

Pela minha parte, há uma razão:

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Os últimos dias do resto do fim do Regime





Imagem do Kaos


Estamos em janeiro, e janeiro é sempre um mês muito longo, o mês mais longo de todo o ano.
Em 2011, janeiro já começou com todos os sinais nefastos, e o mais nefasto está ainda para vir, esse dia 23, em que vamos entrar em sede vacante da República. É verdade que a República nunca foi uma coisa particularmente entusiasmadora, como também a Monarquia já não o era, desde o final da nossa homérica Idade Média Portuguesa, pelo que o problema não deverá estar no regime, mas, como sempre, no substrato, essa coisa genérica, a que se chama "povo", e que nos vai mantendo, século após século, no pardo cóccix europeu.

Eu pensava que desta feita estaria imune ao ato, o eleitoral, mas a verdade é que o ato é demasiado grave para que dele me alheie, e eu passo a explicar: o problema Cavaco, a doença deste janeiro, o Cavaco, que a si mesmo se descreve como "não político", é isso mesmo: o saloio de Boliqueime, de facto, não se integra na galeria dos políticos, mas, sim, na galeria dos flagelos, e está para as sociedades democráticas, com as devidas reservas da hipérbole, como Hitler esteve para a República de Weimar. Os "cavacos", estes cavacos, são coisas, epifenómenos, objetos, aparentemente alheios aos sistemas, mas que neles se infiltram, os gangrenam, e acabam por levar ao colapso final. O grave deste grave, é que, pela onomástica e pela necessidade taxonómica que sentimos, para nos aliviarmos do insustentável peso do Tempo, essas aberrações culturais acabam por se tornar, pela negativa, nas etiquetas da era que conspurcaram. E assim houve o tempo do Estalinismo, e o Chavismo, e a Era Pinochet, e o nosso muito, muito, miserável salazarismo.

Quando abordo Cavaco, tenho, pois, a consciência, como sempre tive, de que a criatura era a luta para uma vida. Não se tratava de um simples problema político, mas de uma incompatibilidade histórica e existencial: enquanto intelectual e escritor, acho um vexame que a minha cronologia possa, naqueles futuros que não controlamos, ser etiquetada como "fulano de tal, tendo vivido no período [da má moeda] cavaquista".

Sei que nada se pode fazer contra isto, exceto algo de muito elementar, que é grafar a nota de rodapé da biografia: "foi, até ao final da sua vida, um adversário irredutível do Sistema..."

Se há Sistema, neste momento, a hipóstase do Sistema é Cavaco. Resume tudo o que de pior a nossa raça produziu: a mediania, o retorto e o cobarde, o turvo, o bafiento, o retrógrado, o mesquinho, o vingativo, o ressentido, o chicoespertismo, o irrelevante, o pardo, o estagnado, o repressor com surdina, o retraído, o pobre, o miserável e o arrogante, na sua pior forma, já que a ignorância sempre foi arrogante e exaustora dos primeiros planos, lançando para a sombra todas as aspirações acima da baixa mediania.

Dia 23 de janeiro, quando votar, e é indiferente, neste momento, em quem se vote, porque a República, estrangulada e suicidária, já se decidiu lançar num pântano sem descrição, irei votar contra Cavaco, não por razões políticas, mas por razões de dignidade pessoal e histórica: marcar posição, para que sobre o meu curto tempo humano e coletivo, essa sombra possa pairar, e durar, o mínimo possível. Contudo, para a nossa escassa finitude, Cavaco já durou tempo demais: ao completar o seu segundo mandato, se os prodigiosos tratamentos do Professor Lobo Antunes assim o tiverem permitido, terá consumido 20 anos da nossa democracia, ou, no sistema cronológico paralelo, durado meio salazarismo.

Sei que pôr a questão nestes termos pode parecer uma perspetivação pouco ortodoxa, mas não conheço outra, e é esta que me apetece. Sei que é preferível andar a discutir o homem privado Cavaco nas imundícies que o relacionavam com essa coisa execrável chamada BPN, mas o BPN é um pouco como o Casa Pia, um entretimento, um portugal dos pequeninos no qual eles andavam todos, quando não estavam a fazer pior. O BPN é um episódio tardio da enorme devastação que Cavaco Silva provocou no cenário económico, financeiro, social, educacional e cultural, português. Cheguei ao ponto de lhe o desculpar, já que se insere na lógica do colchão, uma coisa entre amigos, que, apesar de se falar na Bolsa, sempre era mais seguro estar de fora da Bolsa, e que fazia parte daquela mesquinhez tacanha que o homem de Boliqueime incarna superlativamente, e que, de forma irredutível, mais uma vez nos afastou dos padrões europeus, aquele sentido chão do pézinho de meia, do dinheiro contado, na forma do meio queque que dava aos netinhos, na "Pastelaria Carrossel", para que eles não ganhassem o mau hábito de comer um bolo inteiro... Se os bolos fossem recicláveis, este meio queque comido até poderia ser sempre o mesmo, como o célebre par único de botas, do Vacão de Santa Comba Dão.

Os crimes do Cavaquismo terão um dia o seu grafar histórico: são uma longa série de arrogâncias, intolerâncias, cobardias, e genocídios culturais, educacionais económicos e sociais. Invariavelmente, revestiram a pele do crime sem castigo, das leonores belezas, que, muito mais gravemente do que os buracos do BPN, cavaram as sepulturas das vítimas do sangue contaminado: também aí, como com Dias Loureiro, um facínora, a quem qualquer regime de bons costumes voltaria, por pudor, a cara, o horror foi perdoado e promovido: fundações, prémios costurados à medida, exílios em repúblicas das bananas, condecorações e conselhos de estado. Tudo isto traduz um regime doente, que vai a sufrágio dentro de duas semanas, e no qual medraram estas figuras, todas elas regidas por uma mesma autocomplacência, que foi a de terem atingido o topo da base, um patamar de aspirações muito especificamente representativo do pior de nós mesmos, com os matizes do que o topo da base foi para cada um deles: presidir a uma fundação, ser ministro, ou presidente de uma miserável república.

Poderia ficar por aqui, mas não fico: o que escrevo é mais intemporal do que este mês de janeiro de 2011. Estas gentes, as mesmas, pardas, dos rastejares de Fátima, dos dinheiros no colchão, dos narizes de batata a pingar ranho em cima de cachecóis pretos, os apreciadores das marisas, dos crentes em que temos o melhor clima do mundo, a serra mais bonita da Europa, a "saudade", que não há em mais nenhum lugar do mundo, exceto em todos, e uma multidão de inúmeros pequenos disparates, que são o reiterado espelho da nossa menoridade, estas gentes vão por cá ficar, depois de terem criado mais uma nódoa no nosso devir político, o "Cavaquismo", a ressoar conjuntamente com o "Salazarismo", para que as gentes lá de fora nos possam olhar, pelo séc. XX e XXI, e dizer, lá estão aqueles povos do sul, incapazes de democracia, e a recriarem permanentes caciquismos, em forma de paternalismos de aldeia com pocilga no andar de baixo, e matriarca de bigode, a cheirar a bacalhau, no andar de cima, depois de séculos de autos de fé e de queimas de passarolas. Como dizem as ratas de sacristia, assim sempre foi, e assim sempre será, porque há uma idiossincrasia de alcáceres-quibires, que nos é atávica. Na altura da escolha, escolhemos sempre o pior, o mais demorado, e o de mais difícil recuperação, mas isso não é novidade: de aqui a 500 anos, como há 500 anos atrás, se estas gentes tivessem pela frente um Cavaco, ou equivalente, lá iriam, cabisbaixas, estender-lhe a mão, para assegurar mais cem anos de afastamento da grande rota do mundo,  e de complacente estagnação.
Peço, pois, que me reconheçam o direito de me distanciar, como voltarei a fazê-lo, de cabeça erguida, em 23 de janeiro.


segunda-feira, janeiro 03, 2011

Cortes na educação, por manuel baptista

A chamada «austeridade» significa CORTES no orçamento ordinário das
escolas e eliminação maciça de postos de trabalho docente, pondo o
funcionamento mínimo dos estabelecimentos em perigo.
Temos de impedir esta barbárie.

Desejos sinceros de um BOM ANO de 2011 com olhos bem abertos e com
muita coragem para todoas/os...
Manuel Baptista
Envio a resolução do conselho de Ministros de ontem e o Parecer do CNE sobre a reorganização curricular do ensino secundário...


Destacam-se:
Medidas implementadas

Redução de 5000 docentes no ano lectivo de 2010 -2011, decorrente de
uma gestão mais eficaz na constituição de turmas e distribuição de
horários de docência, nomeadamente através do encerramento de escolas
com menos de 20 alunos e da agregação de unidades de gestão.
Alteração dos critérios para a fixação do número de adjuntos do director.
Passagem para o Programa Operacional Potencial Humano (POPH) do
financiamento das escolas profissionais privadas da Direcção Regional
de Educação de Lisboa e Vale do Tejo — Oeste, Médio Tejo e Lezíria.

Medidas em curso e a implementar

Eliminação da área de projecto no 12.º ano (área não disciplinar
correspondente a quatro tempos lectivos), com efeitos a partir do ano
lectivo de 2011 -2012. (Dezembro de 2010)
Alterações curriculares (eliminação da área de projecto e do estudo
acompanhado). (aprovado em CM do dia 25 de Novembro)
Obrigatoriedade de os professores bibliotecários leccionarem uma
turma. (Dezembro de 2010)
Redução do crédito horário das escolas — pacote de horas de redução da
componente lectiva de que o director dispõe para o desempenho de
cargos, projectos e actividades por docentes. (Dezembro de 2010)
Redução do número de horas de assessoria às escolas. (Dezembro de 2010)
Alteração das condições para a dispensa da componente lectiva de
coordenadores de estabelecimentos de ensino. (Dezembro de 2010)
Redução das equipas do Plano Tecnológico da Educação. (Dezembro de 2010)
Redução em 70 % do número de docentes de carreira em mobilidade para
funções em entidades externas ao ME — não renovação anual dos
destacamentos. (1.º trimestre de 2011)
Aplicação às escolas do artigo 84.º do Código do Trabalho — redução da
componente lectiva associada ao trabalho nocturno (das actuais 20
horas para as 22 horas). Ontem, o Paulo Guinote deu conta aqui desta
medida. (Dezembro de 2010)
Financiamento do funcionamento das escolas dos territórios educativos
de intervenção prioritária (TEIP) das regiões de convergência. (entre
Dezembro de 2010 e Janeiro de 2011)
Pagamento de encargos com cursos de educação e formação (CEF) e cursos
profissionais das escolas públicas através de fundos comunitários.
(entre Dezembro de 2010 e Janeiro de 2011)
Aplicação da condição de recursos à educação: acção social escolar.
(Janeiro de 2011)
Aprofundar o reordenamento da rede escolar, nos termos previstos na
Resolução do Conselho de Ministros n.º 44/2010, de 14 de Junho,
constituindo, até ao início do ano lectivo de 2011 -2012, unidades de
gestão que integrem todos os níveis de educação e ensino.Eliminação da
área de projecto no 12.º ano (área não disciplinar correspondente a
quatro tempos lectivos), com efeitos a partir do ano lectivo de
2011-2012. (Janeiro de 2011)
Redução de 50 cargos dirigentes (20 %) nos serviços centrais e
regionais. (sem data prevista)
Redução de 5,5 % no orçamento de funcionamento das escolas. (a partir
de 1 de Janeiro)
Redução de 17 % nas despesas de funcionamento dos gabinetes
ministeriais, serviços centrais e regionais. (a partir de 1 de
Janeiro)
Avaliação e renegociação dos contratos de associação: a) fórmula de
financiamento assente no princípio da atribuição de um subsídio anual
por turma; b) avaliação e ajustamento da rede de escolas com contrato
de associação em função das efectivas necessidades. (diploma a
aguardar publicação)
Passagem para o POPH (eixo n.º 1) dos contratos de patrocínio —
financiamento público do ensino da música e da dança nas escolas
privadas das regiões de convergência. (entre Dezembro de 2010 e
Janeiro de 2011)
Extinção/fusão de organismos da administração pública directa e indirecta.
--
A ler:


2010-27-Dez-Consolidacao-orcamental.PDF 2010-27-Dez-Consolidacao-orcamental.PDF


2010-27-Dez-Consolidacao-orcamental.PDF Parecer-Reorg-Cur-Ens-Secunario.PDF

Ao Ano que se inicia :"that I will be good"




Depois de uma música dedicada ao Ano que findou, outra para o Ano de 2011 que se inicia. Depois dos votos mais colectivos, uma canção conhecida de Alanis Morrisette mas que resume bem o que sempre podemos conseguir num Ano Novo, individualmente, traga ele o mal que trouxer. O que CADA ser humano pode sempre alcançar, mesmo que se sinta deseperado e triste com todo o tipo de crises.
E lá insisto eu nesta tecla da atitude individual, pois continuo a achar que, apesar de todos os gestos colectivos que podemos tomar, cabe a cada UM optar entre o que está ou não correcto, entre o que é ou não bom e justo. Aconteça o que acontecer que não depende directamente de nós.
Por exemplo, parafraseando a canção, uma pessoa como esta "euzinha" que aqui fala, pode ficar mais cansada,mais chatinha e mais impaciente, os anos que passam podem trazer-nos mais quilos, rugas falta de memória e desânimo,o sistema educativo pode degradar-se até ao ponto do absurdo, o sistema social que se instala pode tornar-se cada vez mais perverso, remetendo-nos para certo isolamento e incapacidade de agir, podemos cometer muitos erros no percurso e fazer algumas "burrices", mas há algo para que não temos desculpas: cada dia que passa,podemos optar sempre e sempre pela BONDADE e pelo não abandono do sentido de JUSTIÇA. Pela SOLIDARIEDADE e pela PAZ com os outros.
Essas é que são as nossas "Novas Oportunidades" em cada dia da nossa vida.
Por mais que nos pisem, excluam ou humilhem, não temos desculpas para escolhermos a CRUELDADE e o ressentimento, em vez da Paz e da Liberdade. Ou para ficarmos cegos ao sentido de Justiça e de Verdade, para nos fecharmos no mero Orgulho e, já agora...no sempre injustificável Preconceito.
É esse o meu voto pessoal para 2011 e quem quiser que se junte a ele: que eu consiga escolher a BONDADE (que é sempre um gesto livre) e a atitude de PAZ ,tenhamos eu e os outros os defeitos e as falhas humanas que tivermos, traga o Futuro o que trouxer...
E olhem que não estou muito optimista quanto ao resto, quanto a esse Futuro! Mas sei que só com PAZ, interior e com os circundantes, se enfrenta tudo. É nela que a Esperança pode ganhar raizes.
( "That I will be good"... pois só não há qualquer pretexto válido para se escolher a Maldade...).
Sei que parece um discurso muito piegas, mas é esse o meu voto fundamental. Os restantes poderão vir (ou não) por arrastamento.
Bom Ano de 2011 a todos!
Alergia

A um Ano que findou: Yann Tiersen - Les Jours Tristes


E pronto. Mais um Ano que findou, com a continuação das políticas destrutivas da Educação e do país. Mas não desistiremos: aqui estamos, apesar de todas as sinistrices, de mangas arregaçadas para denunciar as desventuras deste jardim à beira mar plantado. Como diz esta canção de Yann Tiersen pela voz de Neil Hannon,vamos sendo deixados para limpar a "confusão" semeada pelos sinistros, sempre desencorajados por quem acha que já não vale a pena lutar pela Justiça, pela qualidade na Educação, pela Paz. Mas sabemos que UM DIA, tudo isto vai mudar, como comprova a História, tão marcada por tristes episódios de delapidação social e cultural, pela implantação da injustiça e de todo o tipo de guerras.
Por isso: XÔ, ó 2010, vai-te lá embora, que estamos prontos a olhar 2011 nos olhos e a agarrá-lo "pelos cornos"! Nestas coisas da Educação como em muito do que se passa no país e no Mundo, rirá melhor quem se rir no fim! E esse dia de certeza chegará,mais cedo do que se espera!
Alergia