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sábado, fevereiro 26, 2011

2000 Anos de "Expresso"





Imagem do Kaos

Há uma corrente da Historiografia, muito próxima do senso comum, que diz que toda a História não é mais do uma série de tentativas falhadas  de narrativa. Hoje, não estou muito para filosofias, pelo que vou já pelas autópsias.

O "Expresso" completa hoje 2000 anos, e não é todos os dias que se alcança tal longevidade. Na realidade, como em todas as estações da vida, falar do "Expresso", em abstrato, é uma coisa tão lata como querer ver a Brigitte Bardot, curva e boazona, de outrora, naquele grande canyon neofascista de rugas, que, na contemporaneidade, se revolve entre línguas eróticas de gato e olho de vidro do Le Pen.

O "Expresso", para quem não se lembre, vem do tempo da Outra Senhora, em que só havia uma Verdade, a do "Diário da República", e a voz do Ministro da Propaganda. Se quiserem uma diferença entre os órgãos do Regime e o "Expresso" era a diferença que vai do café curto à meia de leite: com um pouco de sorte, sentavam-se à mesma mesa, e partilhariam longas conversas em família, se não tivesse havido um rotura de paradigma político que fez o "Expresso" passar a sofrer da Síndroma de Cavaco, ou das carreiras interrompidas. A seu modo, se houvesse um aligeiramento da Velha Senhora, as vozes sucessores da Propaganda já lá estariam todas a estagiar, como depois ficaram.

Como na Historiografia, o sonho do "Expresso" foi sempre substituir a Realidade por um narrativa contemporânea. Não precisava de ser muito convincente, mas só... à justinha. Num povo com grau de literacia baixíssimo, tudo o que aparecia na primeira página do "Expresso" era mais forte do que a Realidade, e ai de quem se atravesse a contrapor a Realidade à narrativa jornalística do "Expresso", e assim nasceram os monstros que nos conduziram ao presente impasse, sempre com um verniz de elitismo, só possível neste país de pés de chinelo.
O "Expresso" é, sempre foi, e arrisco que continuará, por mais cosméticas de revelações que prometa, o oposto das "Wikileaks": por detrás dessas "audácias", haverá sempre um frete político.
A maior virtude do "Expresso" era, é, sempre foi, a sua tenacidade, quer no louvor, quer na anatemização, talvez devido ao ninho de lacraus que é, e ai de quem lhes cair em desgraça, porque o espírito inquisitório tem o braço longo, e pode durar... milénios, éons, todo o tempo de Bilderberg :-)

A história do semanário não me interessa, talvez por que só o tenha comprado meia dúzia de vezes, mas recordo que, com o tempo, passou a sofrer dos vícios das matronas, muita base, muito baton, muito rimel, e roupas vistosas e quinquilharia para encher o olho. Na "période vache" já tinha sacos de plástico suficientemente grandes para a pessoa o poder comprar, despejar o conteúdo no primeiro caixote de lixo à mão, e poupar num saco do LIDL, trazendo o do "Expresso" no bolso, para o encher depois, com bens de primeira necessidade.

Do "Expresso", podemos dizer que tudo o que foi mau por lá passou, e sofreu dos problemas das rotundas, soluções urbanísticas que, como toda a gente que tem formação na área, como eu, sabe que são a maior asneira, no planeamento de tráfego: se, de quatro vias, que nela confluem, houver uma de escoamento rápido, uma média e uma lenta, ganha, passado dez minutos, sempre a lenta, tornando a rotunda num inferno. Como se sabe, isto é irrelevante para os autarcas corruptos, já que lhes permite pagar o mamarracho escultórico do centro, ao amigo do cinzel mais próximo.

Com o "Expresso", sucedeu o mesmo: era, foi, é uma rotunda do pensamento, onde se cruzaram mentes brilhantes, monos e puros medíocres. Pelo processo entrópico, as mentes brilhantes foram fugindo e brilharam os monos medíocres. Eu sei que toda a gente espera que eu torne a coisa nominal, e eu torno: do bom, relembro Luísa Schmidt, e os seus textos, inimitáveis, na qualidade da forma e da informação cívica: dos maus, só me estão a vir à cabeça duas criaturas que provocaram o maior desastre cultural dos anos 80 e 90 de Portugal, chamavam-se, e chamam-se, Alexandre Melo e Clara Ferreira Alves. Do primeiro, dizia-se que promovia os artistas que o comiam, e os que lhe ofereciam obras, quando não gostavam de o comer. Entregou a criação portuguesa aos subúrbios da Fundação Luso-Americana, a soldo da qual arruinou a especificidade cultural nacional por subprodutos que uns quantos pobres diabos repetiam por cá, depois de saídos de moda em Nova Iorque. Lixo, com o nome de Pedro Cabrita Reis, entre outros. De Clara Ferreira Alves, ignara e vingativa, corria que lançava os escritores que a cobriam. O meu editor fez-me claramente a proposta, mas eu preferi a obscuridade à indignidade, sabendo que o Tempo tudo depois reporia.

O tempo mais triste do "Expresso" veio com o surgimento do glorioso "Independente", que inaugurava uma maneira impoliticamente correta de falar dos acontecimentos, sem o tom de Diário da República, tão ao gosto do Sr. Balsemão.
Como se sabe, nada do que é bom dura sempre, e o mau pode eternizar-se. O "Independente" desapareceu, a Blosgosfera abalou, para sempre, o "Expresso" e todos os jornais, e, por lá, ainda peroram, hoje, nulidades do calibre de Sousa Tavares, ou Inês Pedrosa.
Amanhã, garanto, será pior.

Como este é, apesar de tudo, um texto laudatório e de parabéns, vamos a ele, já que o "Expresso" foi pioneiro nas edições "on-line", e manteve, durante um período glorioso, algumas caixas de comentários às quais devo, de facto, estar a escrever aqui, enquanto heterónimo, especificamente criado para por lá metralhar. O primeiro "Arrebenta", nome que execro, divertiu e divertiu-me, ao divertir muita gente. Acabou, como era de prever, quando o enorme luto, chamado Cavaco Silva, voltou a ensombrar Portugal.

Este é um texto de rotina, apenas comemorador da efeméride, já que o que hoje realmente me preocupa é aquela Jugoslávia do Magreb, chamada Líbia, que vai manchar a segunda década do séc. XXI com as suas atrocidades e estilhaçamento. Isso fica para amanhã. Hoje é dia de dar os parabéns aos bons profissionais do "Expresso" e de dizer aos outros, que sempre consideraram o autor do "Arrebenta"... duvidoso, e lhe tentaram apagar o rasto, que o autor do "Arrebenta" aqui continua, todo este tempo passado, vivo, ativo, e a considerá-los, igualmente... duvidosos, e a apontar-lhes todos os vícios dos rastos, de que nunca se conseguirão libertar.

Continuem, que a gente, no fundo, até gosta :-)

(Quinteto pífio, à la Balsemão, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Uma Aventura Sinistra", no "Klandestino", e em "The Braganza Mothers")


sábado, fevereiro 12, 2011

As Múmias de Boliqueime: do alto deste palácio, quarenta anos de atraso vos contemplam

N


magem do Kaos

Há revoluções que são como os rios: começam por um simples fio de água e espraiam-se, depois, em infindáveis oceanos.
Creio que esse seja o espírito do Nilo, e, hoje, o Deus Serápis voltou a levantar os braços no Cairo e Alexandria. Para um cético, como eu, prefiro fixar-me nas imagens, e pelas massas que ondulam, em vez de me embrenhar pelos abismos da futurologia. De aqui a muitos anos, aconteça o que acontecer, serão essas imagens que guardarei comigo, como no dia em que o Muro de Berlim se desfez, e em muitos outros, raros, dias, da nossa memória finita.
O futuro das revoluções só é julgado muito tempo depois, pelos vindouros, para quem elas foram eventos de um distante passado.
Hoje é tão só o dia das marés de gente, das cores das bandeiras e dos civismos de multidões pelas quais passaram alguns dos mais altos momentos da História.

Hoje, no Cairo, dança nas ruas a memória do Unificador das Duas Terras, Ptah e Imoteph, a triologia de Gizeh, a impenetrável Abidos, a grande Hatschepsut e Tutmés, o Grande, o hermético Akhenaton, Nefertiti, o trono infantil de Tutankhamon, os Ramséssidas e os tesouros núbios de Tânis, a voz de Necao, que mandou os fenícios fazer o primeiro périplo de África, Nectnanebo II, que compunha cartas astrológicas para Olympia, a mãe de Alexandre, os Lágidas, César, António e Cleópatra VII, Cesárion e Ísis, Selene, o Farol, o Museu e a Biblioteca, Euclides, os tradutores gregos do Biblion, Hipatia, Justiniano e os homens do deserto, Heráclio, Saladino, os Mamelucos, os sultões escravos, Kavafis e um rio enorme e eterno, que desenha no Céu e na Terra, a monstruosa barragem de Assuão.

Hoje é hoje, e o hoje não é amanhã. O amanhã logo se verá, e vivamos, como as bacantes, as noites dos ardentes dias de hoje. Quando, pelas cinco da manhã, o sol escaldante do deserto voltar a recortar o eterno sorriso de Kéfren, grafado na Esfinge, deveremos questionar o futuro, porque o futuro será feito de coisas que aí vêm, muito breves, mas hoje não me interessam.

É bom saber que o Mundo, cansado da sua impenetrável idade, voltou a respirar uns quantos raros momentos de juventude, e que, mesmo eu, inveterado pagão, avesso aos credos do Livro e da chacina, estou agora a olhar, mudo e quedo, para o Nilo das gentes que ainda acreditam nas mudanças.

Nenhumas destas coisas são passíveis de comparação, mas, enquanto o Norte de África se liberta do seu bolor, sem saber o que lhe reservarão os dias próximos, nós, Portugueses, povo sem solução, mais uma vez deixámos que se arrastassem para o topo do Estado cadáveres adiados sem futuro, carregados do pior bafio.
O Tribunal Constitucional desta coisa agonizante, chamada "República Portuguesa", parece que relembrou que o cidadão Aníbal Cavaco Silva iria, a partir de Março, exercer uma lenta agonia no Palácio de Belém.

Confesso que, depois daquele dia aziago de janeiro, em que uma maioria absolutíssima de portugueses disse a esse homenzinho que o tempo dele tinha acabado, pensei, enquanto escritor, que estivéssemos a assistir a um mero roteiro e virar de página de jornal descartável do metro. Votavam no homenzinho, só para que ele pudesse escrever no currículo que tinha sido duas vezes presidente da vergonhosa coisa portuguesa, mas não foi assim: de facto, o disparate desse dia iria corresponder a uma longa indução em coma, com previsibilidade de duração de 5 anos. Quer isto dizer que, quando o Magreb do Sul, hoje, se começou a livrar das suas múmias, nós, Magreb do Norte, alçámos ao nosso pequeno teatro de revista mais um miserável número de "vaudeville", presépios e visitas a lares de mongolóides.
A preceito, esta enorme paralisia cerebral coletiva precisava da sua Praça Tahrir, aliás, precisava de várias, de marés de gente cheia de espontaneidade, que tirasse os sapatos e os mostrasse a esta corja, agora incarnada por uma mumificação algarvia.

Nada disto, aliás, não cheira nem bem, nem mal, porque já perdemos o olfato e nos deixámos anestesiar por uma ignominiosa rotina de passividade. Perdemos a História e o Tempo, e, enquanto os nossos vizinhos vêm para a rua cantar agora o rumor das massas esperançosas, nós veneramos o pão bolorento, endividados, até à Eternidade, por uma multidão de crimes sem castigo.

Essa... "coisa"... que o Magreb do Norte vai colocar no palácio presidencial português é a sombra de um dos maiores desfalques dos dinheiros públicos a que este país já assistiu, o BPN. Eu sei que não têm verdadeira ideia da dimensão disso, esse... BPN, mas eu vou traduzi-lo por palavras: o BPN é uma espécie de casa pia do freeport de entre os rios dos fundos sociais europeus, onde o apito dourado soava como a fundação hemofílica de um furacão da noite branca, a cobrir de modernas, independentes e lusófonas, a cortiçosa mancha do processo do parque de portucale, no meio de um som de ensurdecedoras sucatas de submarinos.
A fatura será um buraco sem fundo, até à morte dos nossos netos.

Se isto fosse um país, e não um ajuntamento de pessoas, quando as caricaturas de Boliqueime se dirigissem, em Março, a Belém, para nos envergonhar mais cinco anos, deveria haver umas milícias da renovação, que os agarrassem pelos braços, e os obrigassem a uma reclusão, para sempre, nas suas aberrações arquitetónicas do Quinta da Coelha, para tratar dos netos, lembrando que o povo que outrora dominou as Rotas da Pimenta não pode agora estar condenado a respirar pó de múmia para todo o resto da sua História.

(Quinteto de Alexandria, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino", no "Uma Aventura Sinistra" e em "The Braganza Mothers")